Ele não falta. Chega no horário, bate o ponto, veste o uniforme. Mas passa o turno com o celular na mão, erra o que não errava, pede vale adiantado pela terceira vez no mês e começa a ficar irritado com quem sempre trabalhou do lado dele. Do lado de fora, parece desleixo. Por dentro, pode ser outra coisa.
A aposta online — a tal da bet — entrou na pauta de saúde e segurança do trabalho no Brasil. E entrou pela porta que o empregador menos vigia: o bolso de trás da calça.
O que os números começam a mostrar
Segundo levantamento do portal Migalhas com base em dados do Ministério da Previdência Social, citado pela Revista CIPA & Incêndio, os afastamentos por incapacidade concedidos a trabalhadores com diagnóstico de jogo patológico saíram de um caso em junho de 2023 para 62 casos em junho de 2026 — o maior número da série. O perfil predominante é de homens entre 18 e 39 anos.
Sessenta e dois afastamentos no país inteiro ainda é pouco, e é justamente esse o ponto: o afastamento é o fim da linha, não o começo. Para cada trabalhador que chega à perícia, existe um número muito maior que ainda está na empresa, produzindo menos, se endividando e sem falar com ninguém sobre isso.
Como isso aparece antes de virar atestado
Nenhum encarregado vai receber um aviso. O que ele vai ver, no dia a dia, é uma combinação de sinais que sozinhos não dizem nada e juntos dizem bastante:
- queda de rendimento sem causa aparente, principalmente em quem era regular;
- uso do celular fora do padrão da pessoa, inclusive em atividade que exige atenção plena;
- pedidos repetidos de adiantamento, empréstimo entre colegas, venda de pertences;
- irritabilidade, isolamento, sono ruim visível na cara de quem chega;
- faltas curtas e repetidas, sobretudo depois de dia de pagamento.
Em quem opera máquina, dirige, trabalha em altura ou lida com energia, isso deixa de ser um assunto de RH e vira risco de acidente. Atenção dividida e noite mal dormida não avisam antes de cobrar.
Antes de pensar em justa causa
É comum a primeira reação ser disciplinar. Só que demitir alguém que já tem uma condição de saúde reconhecida, e sobre a qual a empresa sabia, costuma terminar em discussão na Justiça do Trabalho — e a empresa raramente sai bem dela.
O caminho mais seguro é o menos dramático: acolher, encaminhar para avaliação de saúde e registrar tudo o que a empresa fez. Documento não é burocracia; é a única memória que vai existir daqui a dois anos, quando alguém perguntar o que a empresa fez quando percebeu. Se o caso caminhar para punição, ela vem depois da orientação médica e do seu jurídico — nunca antes.
Quatro medidas que cabem em qualquer porte
- Coloque saúde mental no seu programa de gerenciamento de riscos, com nome. A gestão dos riscos psicossociais deixou de ser tema de congresso e virou rotina de programa. Endividamento e compulsão não vão estar escritos com essas palavras, mas pressão por meta, jornada estendida e cobrança agressiva estão — e são o terreno onde isso cresce.
- Treine quem lidera, não a empresa inteira. Encarregado, líder de turma e supervisor são quem enxerga o sinal primeiro. Uma conversa de trinta minutos sobre o que observar e para quem encaminhar vale mais que um cartaz na parede.
- Tenha uma porta de entrada clara. A pessoa precisa saber com quem falar sem virar assunto do refeitório. Um canal, um nome, uma sala com porta fechada. Sem sigilo, ninguém procura.
- Use o exame ocupacional como oportunidade, não como carimbo. O momento em que o trabalhador senta na frente do médico do trabalho é, muitas vezes, a única conversa de saúde que ele terá no ano. Quando o exame é feito com tempo e escuta, coisa que não aparece em nenhum questionário aparece ali.
O que fica
Vício em aposta não é falha de caráter do funcionário nem problema exclusivo da vida particular dele. Quando chega ao trabalho, ele chega como queda de produtividade, conflito de equipe, risco de acidente e, no fim, custo. A empresa que percebe cedo trata um problema de gestão. A que percebe tarde trata um processo.
Gancho desta publicação: reportagem “Vício em jogos já impacta SST e alerta sobre saúde mental nas empresas”, Revista CIPA & Incêndio, 17/08/2026. O texto acima é conteúdo original da SafeMed.
A SafeMed cuida da saúde e da segurança do trabalho das empresas de Eunápolis e região. Se você quer incluir os riscos psicossociais no programa da sua empresa de um jeito que funcione na prática — e não só no papel — fale com a gente: (73) 9 9912-3793.

